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Núcleo Macabéa

DEZUÓ (2010)

Instalação Cenográfica e Figurinos: Telumi Hellen Dramaturgia: Rudinei Borges Direção: Patricia Gifford Atuação: Edgar Castro Direção Musical/músico em cena: Juh Vieira Assistente de Cenografia: Andreas Guimarães Cenotécnico: Edson Luna Adereços: Clau Carmo Apoio Técnico: Thales Alves Costureira: Vera Lúcia Honório Iluminação: Felipe Boquimani Preparação Corporal e Vocal: Antônio Salvador Projeto Gráfico: Murilo Thaveira > casadalapa Fotografia e Vídeo: Cacá Bernardes e Bruna Lessa > bruta flor filmes Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro Direção de Produção e assistência de Figurinos: Isabel Soares Parceira: Casa Livre Realização: Núcleo Macabéa, ministério da Cultura e Prêmio Funarte de Teatro Miriam Muniz 2014 Dezuó - Texto Crítico Link: https://rudineiborgesblog.wordpress.com/2023/08/18/recepcao-critica-da-dramaturgia-de-rudinei-borges/ José Cetra Filho O texto conta a história do menino Dezuó que, assim como Rudinei Borges dos Santos, autor da peça, nasceu e morou em cidades ribeirinhas do rio Tapajós e próximas à rodovia Transamazônica e viu sua vila natal ser destruída ao ser invadida pelas águas devido à construção de uma hidrelétrica. Após a destruição de seu lar, Dezuó muda-se para a cidade grande, onde se sente um estranho no ninho. Patricia Gifford acreditou que o texto poderia resultar em espetáculo e, amparada em seu talento e na cenografia criada por Telumi Hellen, criou uma belíssima tradução cênica. Em uma plataforma circular de cerca de três metros de diâmetro, o menino Dezuó, munido de barro e pequenos objetos, constrói o seu vilarejo, nada no rio criado a partir de água derramada na plataforma e mostra a destruição do vilarejo quando a água o inunda. O ambiente urbano, quando Dezuó vai para a cidade grande, é criado fora da plataforma, em um tom cinzento e frio. O espetáculo é essencialmente visual e sensorial. Em uma interpretação que se soma aos excelentes trabalhos masculinos do primeiro semestre de 2016, o também paraense Edgar Castro entrega-se visceralmente à personagem, lambuzando-se de barro e de água. Somatória dos talentos do autor Rudinei Borges dos Santos (que já havia nos brindado com o poético Dentro é lugar longe,da Trupe Sinhá Zózima, em 2013), da encenadora Patrícia Gifford (da Cia. São Jorge de Variedades e mola mestra do inesquecível Barafonda, de 2012), da cenógrafa Telumi Hellen (que participou do Centro de Pesquisa Teatral e foi assistente de J. C. Serroni) e do ator Edgar Castro (realizou trabalhos com a Cia. do Latão, a Cia. Livre e a Cia. São Jorge de Variedades), Dezuó só poderia resultar nessa verdadeira preciosidade.

PROCESSO

EPÍSTOLA.40 (2016)
 

Cenografia e Figurino: Telumi Hellen Dramaturgia e coordenação: Rudinei Borges Encenação: Edgar Castro Atuação: Alexandre Ganico, Andrea Cavinato, Daniela Evelise, Dionízio Cosme Do Apodi, Heitor Vallim Iluminação: Felipe Boquimpani Sonoplastia: Dani Nega Produção: Fernando Gimenes Programação Visual: Renan Marcondes Fotografia e Vídeo: Cacá Bernardes, Bruna Lessa / Bruta Flor Filmes Assistência de Direção e preparação corporal: Raoni Garcia Assistência de Figurino: Claudia Melo Pintura cenográfica: Thalita Gomes, Claudia Ferreira, Anny Soares, Amanda tolentino de Araújo Oficina de história Oral: Marcela Boni Oficina de jogos grupais: Rani Guerra Oficina de cultura popular: Cleydson Catarina Oficina de teatro e imaginário: Andrea Cavinato Palestra - Clarice Lispector: Gilberto Martins Revisão de texto: Airton Uchoa Neto EPÍSTOLA.40: CARTA (DES)ARMADA AOS ATIRADORES - Texto Crítico Link: https://rudineiborgesblog.wordpress.com/2023/08/18/recepcao-critica-da-dramaturgia-de-rudinei-borges/ Resistência poética, política, dramatúrgica Alvaro Machado Epístola.40: carta (des)armada aos atiradores atualiza para os anos 2010 a grande poesia a um só tempo lírica e épica do pernambucano João Cabral de Melo Neto, em especial Morte e vida severina, poema escrito em 1955 e potencializado em 1965 com a música de Chico Buarque. Desde Canudos, há exatos 120 anos, a reforma agrária, anseio fundamental do povo brasileiro, pela qual tantos sucumbiram sob o impacto de balas, é varrida continuamente pelos ventos aziagos da acumulação financeira. Na voz condutora da personagem Macabéa, Epístola.40 testemunha contornos hodiernos do desterramento de cidadãos e camponeses do Norte e do Nordeste, fenômeno iniciado nos anos 1950, com a migração, muitas vezes em conjuntos familiares inteiros, para “depósitos de homens”, franjas de capitais do Sudeste e de grande cidades do Centro-Oeste, como Brasília, a partir de 1961. Homens perversamente destinados aos serviços e subempregos mais insalubres, relegados a ajuntamentos precários de política sanitária nenhuma e tornados, assim, descartáveis como laranjas espremidas. Com abundantes referências emprestadas do universo religioso e místico popular – já a partir dos nomes de batismo em um núcleo familiar – e estrutura dramatúrgica paralela à da liturgia cristã, a peça do paraense Rudinei Borges acompanha os “passos” de calvário desses migrantes desde sua chegada. O caso enfocado é o do despejo à força de centenas de moradores da Favela do Boqueirão, na Zona Sul da capital paulista, em 2011. A partir de então, o dramaturgo conviveu cinco anos com essa comunidade. Vai-se da memória da Graça natural, no torrão natal, ao presente de inferno material em subespaços metropolitanos geradores de comprometimento físico e moral. No limite da sobrevivência, acontece o confronto. A violência policial é desmedida para aqueles que ousam reivindicar terra ou qualquer um dos pontos rezados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pelo conjunto das nações em 1948, porém página a cada dia mais virada e apagada por todos os poderes do planeta de tetas exaustas ante a avidez doentia do Capital descontrolado. Declarado motivo de inspiração para a ficcionalização a partir de fatos, o romance A hora da estrela, de Clarice Lispector – com sua ingênua Macabéa imigrante nordestina para o Rio de Janeiro –, sobrepõe-se, no entanto, a duas outras escrituras de alta densidade literária, embebidas igualmente de anima brasileira a ponto de se tornarem culminâncias no paradigma literário do país. São elas a obra citada de Melo Neto e os romances e contos de João Guimarães Rosa, cuja prosódia constitui alicerce evidente da escrita de Borges, como aliás já se percebia em suas peças anteriores, em especial Dezuó, de 2016. No corpo a corpo cênico, os motivos poéticos dessa escrita são envolvidos nas características extraordinárias de um espaço que se poderia declarar herdeiro – em termos físicos, intelectuais e idealísticos – do histórico Teatro de Arena de São Paulo. Na sala principal do casarão do Pessoal do Faroeste, grupo a comungar raízes paraenses com Borges – em um bairro da Luz também tornado “depósito humano” –, cinco atuantes ficam ao alcance das mãos dos espectadores. A proximidade poderia sugerir, de outro lado, estudos de emissão vocal e de acústica capazes de propiciar sons e sentidos concentrados em alturas medianas, de modo a valorizar tons médios e graves, via de regra sucumbidos em estridulações que se convenciona interpretar como urgências. Do ponto de vista dramático, a par do acento épico brechtiano bem marcado na Macabéa que narra em máquina de escrever a saga dessa “gente em arribação ininterrupta”, o autor satura de paramentos estilísticos seus desvalidos, a convertê-los em celebrantes de missa barroco-profana. Essa não é, porém, a única dinâmica empregada, e o bem-vindo resgate naturalista se dá pela via da ação exterior, no último terço. No desenho de resistências e de embate físico, os diálogos se arejam até desaguar na epifania final que sintetiza harmoniosamente as vertente anteriores. Contemplada pela 27ª edição da Lei de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo, a encenação é assinada pelo ator e diretor Edgar Castro, com total entendimento da proposta dramatúrgica. No conjunto de ações que envolve o projeto, ressalte-se a qualidade dos materiais agregados para contar a tragédia da privação, da exclusão e do abandono. Para além da escrita teatral requintada, o conjunto da encenação trata seu espinhoso tema com toda a nobreza possível, do programa bem desenhado à distribuição, sem cobrança, de bem editado e acabado livro com texto integral da obra; de cuidados cenográficos evidentes a seminário dramatúrgico paralelo etc. Apenas esses cuidados, cumpridores, decerto, da proposta apresentada à cidade via Lei de Fomento, já reverberam profundamente no espectador, convidando-o a resgatar, não apenas na encenação, mas na coadjuvância de tantas iniciativas e detalhes, a sagrada dignidade de humanidades soterradas. Epístola.40 - Texto Crítico Link: https://rudineiborgesblog.wordpress.com/2023/08/18/recepcao-critica-da-dramaturgia-de-rudinei-borges/ José Cetra Filho O texto de Rudinei Borges trata de assuntos sociais bastante sérios, como a chegada de migrantes nordestinos na desumana cidade grande, a procura de um lugar para morar, as constantes ações de despejo dos barracos onde vivem de maneira precária e até a perda de entes queridos nos confrontos com a truculência da polícia. Como já fizera em Dezuó, o dramaturgo trata esses temas de maneira poética, com frases de linguagem sofisticada, que remetem ao grande Guimarães Rosa. Há muita poesia na prosa de Borges. O texto se inspira em A hora da estrela, de Clarice Lispector, no Primeiro Livro dos Macabeus e, principalmente, nos relatos das moradoras da comunidade do Boqueirão, situada na Zona Sul da cidade. Telumi Hellen assina a simples e criativa cenografia, que conta com objetos de cena manipulados pelos atores e que criam belas cenas de conjunto, como aquela da chegada em São Paulo. Edgar Castro dirige o todo, criando, com o auxílio da iluminação ocre de Felipe Boquimpani, bela harmonia entre o espaço cênico e os atores. Daniela Evelise é presença marcante como a protagonista Macabéa que, como sua homônima no livro de Clarice Lispector, datilografa (neste caso, as cartas dos parentes). Dona de vigoroso físico e doce voz, suas falas e as intervenções quando repete a última palavra do que alguém está lhe ditando estão entre os melhores momentos do espetáculo. Inesquecível também a cena do aprendizado da datilografia, após receber a máquina do pai, que segundo ele pertenceu ao Frei Damião. A personagem do menino Auarã, filho de Macabéa, é defendida com sensibilidade por Dionizio Cosme do Apodi. Completam o bom elenco: Alexandre Ganico (Judas, o pai), Andrea Aparecida Cavinato (Nazara, a mãe) e Heitor Vallim (Misael, o irmão). O autor soube dosar os fatos narrados com aqueles com ação dialógica, e este equilíbrio dinamiza o espetáculo. Após Dezuó, Epístola.40 reafirma o talento dramatúrgico/poético de Rudinei Borges.

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